Desde 2020 acompanho o projeto LIFE Natura@night, coordenado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo de Aves(SPEA). Este projeto tem como objetivo reduzir a poluição luminosa que afeta as áreas protegidas dos arquipélagos da Madeira, Açores e Canárias, e mitigar os seus impactos nas espécies protegidas ao nível da UE. As aves marinhas são utilizadas como espécies bandeiras e indicadoras do impacto da poluição luminosa – uma das ameaças prioritárias para este grupo na Macaronésia.
O Life Natura@night envolve organismos nacionais e regionais, astrónomos, governos locais, biólogos, engenheiros do ambiente, especialistas de iluminação, dezenas de voluntários, ONG’s, entre outros.

Se dúvidas houvesse sobre a multidisciplinaridade que envolve uma solução de iluminação, este projeto não deixa dúvidas. Uma das áreas em que tive o privilégio de colaborar, conjuntamente com uma vasta equipa da SPEA, foi a redução da poluição luminosa da frota de barcos de pesca dos Açores, para minimizar o impacto na biodiversidade noturna, como por exemplo as aves marinhas.
As aves marinhas da família Procellariidae confundem luzes artificiais com fontes de luz natural e outras, e podem ficar desorientadas pela interferência nos seus sinais de navegação, como a lua e as estrelas. As aves marinhas são impactadas negativamente pelas luzes dos barcos de pesca, levando à desorientação, a colisões e a encalhes. Inclusive, há estudos que indicam que a presença de navios junto a colónias de aves marinhas diminui a entrada das aves na colónia numa média de 18%/hora, uma vez que a iluminação de navios aumenta a luz e o brilho nas falésias onde estas nidificam (Austad et al., 2023), sendo por isso essencial que quem anda no mar tenha iluminação mais eficiente.

Até ao momento, os resultados preliminares da avaliação da perceção dos pescadores indicam que a desorientação com colisão direta e encalhe não ocorre regularmente. O que pode ser explicado pelo facto de a pesca do atum decorrer maioritariamente de maio-setembro, pelo que as ocorrências são quase sempre adultos, que têm tendência a afastar-se das luzes (Syposz et al., 2021), contrariamente aos juvenis que têm tendência a ser atraídos pelas luzes.
Foram realizadas várias ações, incluindo 82 inquéritos junto dos pescadores, que representam as várias artes de pesca nos Açores, para avaliação das necessidades de iluminação e o levantamento do sistema de iluminação atualmente usado e que tanto impacta nas aves marinhas. Destas ações concluímos que a maioria dos barcos tinha excesso de iluminação, projetores com temperaturas de cor superiores a 6000 K, sem controlo fotométrico e com ângulos de orientação elevados. Resumidamente, o sistema cobria todas as vertentes que caracterizam a poluição luminosa com graves consequências para a biodiversidade noturna.
Importa informar que a população açoriana de cagarros (espécie de ave marinha) representa cerca de 75% da população mundial desta espécie!
De referir que são estes mesmos cagarros os maiores aliados dos pescadores, porque são eles que indiciam a presença de cardumes no alto mar, importância esta reconhecida pelos pescadores. Contudo, infelizmente, a informação sobre os impactos e medidas de mitigação da poluição luminosa ainda são pouco conhecidas por estes, sendo fundamental a sensibilização da frota. Este desconhecimento, assim como as opções de iluminação de baixo custo disponíveis no mercado, não vai de encontro a uma iluminação eficiente que proteja as aves marinhas.
Feito o diagnóstico, a equipa avançou com uma solução de um sistema de iluminação que cumprisse as seguintes condições:
- A solução encontrada fosse sustentável e não tivesse impactos negativos na atividade pesqueira;
- Os projetores teriam de ter uma elevada resistência à corrosão salina: os projetores a utilizar terão um IP68 e devem passar um ensaio de névoa salina, de 5000 horas;
- Distribuição fotométrica assimétrica e ajustada à área a iluminar, de forma a reduzir os ângulos de orientação e evitar a emissão de luz para o hemisfério superior;
- Reduzir os níveis de iluminação sem comprometer a atividade e segurança dos pescadores. Menos intensidade luminosa implicará menos luz refletida na água;
- Utilização de tecnologia com temperaturas de cor 2700 K;
- Dotar os barcos de um sistema de controlo de iluminação inteligente, de modo a reduzir ou apagar a iluminação por zonas ou a totalidade, de acordo com a utilização;
- Iniciar com um projeto piloto para avaliar os impactos das alterações na iluminação.
Assim, foram selecionados 2 barcos de pesca, atuneiros de salto e vara, o Pepe Cumbrera e o Bela Aurora, para implementação do novo sistema de iluminação.
Alberto Van Zeller
Membro do Centro Português de Iluminação (CPI)
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