Revista o electricista

importações de petróleo bruto e de gás natural

A origem das importações de petróleo bruto e de gás natural

Em 2021 o país deixou de importar carvão devido ao encerramento das centrais termoelétricas. Desde então, a maior parte das importações de produtos energéticos refere-se ao petróleo bruto (e também aos produtos derivados, em menor quantidade) e ao gás natural.

Qual a evolução e a origem das importações destes produtos energéticos?

Evolução das importações

Entre 2000 e 2024, as importações totais diminuíram em cerca de 16,8%. O produto energético que mais contribuiu para esta diminuição foi o petróleo bruto e derivados (-12,2%), mas também, embora em menor escala, as restantes fontes (inclui o carvão, eletricidade, biomassa e biocombustíveis) com uma queda de 66,4%, justificada pelo fim das importações de carvão (Figura 1).

Evolução das importações, Mtep [2000 - 2024].
Figura 1. Evolução das importações, Mtep [2000 – 2024].

No caso do gás natural, a situação é inversa, verificando-se um aumento de 46%. Este aumento deve-se ao facto de que a quantidade de gás natural consumida no ano 2000 era muito baixa (quer a destinada ao consumo final, quer a dedicada à produção de eletricidade).

No ano 2000, no mix das importações totais, o petróleo bruto e os derivados representavam 73%, o gás natural 9% e as restantes fontes 18% (com o carvão incluído). Em 2024, a repartição foi de 77% para o petróleo bruto e os derivados, 16% para o gás natural e 7% para as restantes fontes (já sem o carvão, basicamente importações de eletricidade e de produtos energéticos renováveis).

Com a atual tendência de diminuição do consumo de gás natural e com o fim da utilização do carvão, é expectável um crescimento contínuo do peso do petróleo bruto e derivados no mix das importações nos próximos anos.

Origem do petróleo bruto

No mercado das importações, para que haja previsibilidade e estabilidade no que respeita à segurança do abastecimento, e de modo que a economia não seja afetada pela falta ou escassez de produtos, é fundamental diversificar os mercados de origem.

Com a transição energética a acontecer, a verdade é que a procura global por este combustível não renovável continua em níveis muito elevados e Portugal não é exceção.

Os grandes exportadores mundiais são a Arábia Saudita, Rússia, EUA, Iraque e o Canadá.

Esta fonte de energia tem gerado conflitos cíclicos sobretudo no pós 2.ª Guerra Mundial, ocorrendo na maior parte das vezes no Médio Oriente, e, mais recentemente, no leste europeu com o conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Quando se verifica a escassez deste produto no mercado, o seu efeito inflacionista é devastador, afetando tanto as economias dos países ricos como dos países pobres. Neste contexto, entre 2000 e 2023, Portugal diversificou o mercado de importação deste produto, tendo sido abastecido por 28[i] países. O ano 2006 foi o ano da maior diversificação (18 países) e 2023 o ano da menor (9 países).

Importações petróleo bruto, Mton [2000 - 2023].
Figura 2. Importações petróleo bruto, Mton [2000 – 2023].

Na Figura 2, observamos a evolução das importações de petróleo bruto entre 2000 e 2023, com a identificação dos principais fornecedores. Durante este período, Portugal importou aproximadamente 283 milhões de toneladas de petróleo bruto, repartindo-se respetivamente pela Nigéria (12,7%), Brasil (11,8%), Angola (11,1%), Arábia Saudita (10,6%), Argélia (7,9%) e Rússia (6,1%). Os “restantes” 40%, repartem-se por 22 países.

Nos anos mais recentes, entre 2020 e 2023, o Brasil passou a ser o principal país fornecedor (36,2%), seguindo-se a Nigéria (16,4%), Azerbaijão (9,7%), Argélia (8,1%) e EUA (6,7%).

Origem do gás natural

A maior parte dos países produtores de petróleo são também produtores de gás natural e, à semelhança do petróleo bruto, também o gás natural apresenta atualmente uma procura muito elevada à escala global. No caso de Portugal, a tendência é oposta, com as importações a diminuírem em 38% entre 2022 e 2024, resultado da contração do consumo deste gás em cerca de 23%, no mesmo período.

O preço deste gás é influenciado pelas flutuações do preço do petróleo Brent, uma vez que, dois terços de todos os contratos de petróleo bruto em todo o mundo estão ligados às cotações do Brent. Também este gás está altamente exposto aos conflitos geoestratégicos, e quando os preços no mercado grossista sofrem variações bruscas ou inesperadas, os seus efeitos são igualmente devastadores para todas as economias.

Os principais exportadores mundiais são os EUA, Rússia, Catar e a Noruega.

O gás natural chega ao território nacional através de barco (gás natural liquefeito), gasoduto (interligações com a Espanha), e em quantidades marginais, por camião-cisterna.

De 2000 a 2024, o transporte por barco representou 58,6% do total importado, e 41,4% por gasoduto. A partir de 2019 até à atualidade, Portugal quase abandonou o transporte de gás natural por via dos gasodutos, passando estes a representar apenas 3,7% do total importado, enquanto o transporte por barco passou a representar 96,1%.

Entre 2000 e 2024, Portugal foi abastecido por 12[ii] países além de outros não especificados. Os anos de maior diversificação do mercado importador (10 países) foram respetivamente 2013, 2019 e 2020, e os anos de menor diversificação (4 países) foram 2023 e 2024.

Na Figura 3, observamos a evolução das importações de gás natural entre 2000 e 2024, com a identificação dos três principais fornecedores. Durante este período, Portugal importou 108 milhões de 103Nm3 de gás natural, repartindo-se respetivamente pela Nigéria (39,9%), Argélia (37,2%) e EUA (9,4%), o equivalente a 86,5% do total importado.

Importações de gás natural, milhões 103Nm3 [2000 - 2024].
Figura 3. Importações de gás natural, milhões 103Nm3 [2000 – 2024].

Nos anos mais recentes, entre 2020 e 2024, a Nigéria foi o principal país fornecedor (50,2%), seguindo-se os EUA (32,6%) e a Rússia (9,3%).

Conclusão

No percurso da descarbonização da economia para a neutralidade carbónica, verificamos que nos anos mais recentes registou-se uma efetiva diminuição das importações de petróleo bruto e de gás natural. Esta tendência terá de ser fortalecida nos anos futuros.

A questão que se coloca é a velocidade com que passaremos a importar menos quantidade destes combustíveis fósseis e a ser menos dependentes do exterior.

No caso do petróleo bruto, Portugal importa este produto para transformá-lo em novas formas de energia, como o gasóleo, gasolinas, GPL, combustíveis para os transportes aéreos e marítimos, entre outros, e também em outros produtos derivados, para fins não energéticos.

No nosso país, o principal setor consumidor de derivados do petróleo é o setor dos transportes. Entre outras soluções para acelerarmos a diminuição das importações apontam-se i) a diminuição do consumo de energia deste setor envolvendo alterações comportamentais dos cidadãos (maior uso dos transportes públicos, opções por modos cicláveis e suaves de mobilidade, outras soluções de mobilidade mais sustentáveis); ii) maior incorporação de biocombustíveis; iii) substituição dos veículos a combustão por veículos elétricos.

Nos próximos anos, preveem‑se alterações profundas no sentido da descarbonização do setor, com os combustíveis fósseis tradicionais a poderem ser gradualmente substituídos por eletricidade, biocombustíveis avançados, combustíveis sintéticos renováveis, hidrogénio verde e biometano.

Em relação ao gás natural, o cenário é diferente. As importações caíram abruptamente entre 2022 e 2024 (-38%) e temos de recuar a 2003, para encontrarmos um registo inferior ao do ano 2024.

O gás natural está a ser progressivamente reduzido, seja o destinado à produção de eletricidade, seja o direto para consumo final. O aumento contínuo da produção de eletricidade renovável tem substituído gradualmente o consumo de gás utilizado para a produção de energia elétrica. Por outro lado, à medida que a eletrificação vai ocorrendo, esta forma de energia vai substituindo os equipamentos a gás.

No futuro próximo, também a produção de gases renováveis, nomeadamente o biometano e o hidrogénio verde, irão contribuir para a redução das importações de gás natural por via da incorporação destes gases nas atuais redes de gás.


[i] Angola, Arábia Saudita, Argélia, Azerbaijão, Brasil, Camarões, Canadá, Cazaquistão, Costa do Marfim, Dinamarca, Egito, Emiratos Árabes Unidos, EUA, Gabão, Gana, Guiné Equatorial, Irão, Iraque, Koweit, Líbia, México, Nigéria, Noruega, Reino Unido, República do Congo, Rússia, Síria, Venezuela.

[ii] Angola, Argélia, Catar, Egipto, Emiratos Árabes Unidos, EUA, Guiné Equatorial, Nigéria, Noruega, Países Baixos, Rússia, Trinidad e Tobago, País não especificado.

António Almeida
Técnico Especialista da Direção de Formação, Informação e Educação
ADENE – Agência para a Energia

Fonte da imagem em destaque: Freepik

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