Revista o electricista

Iluminar sem estragar

Os ciclos diários de luz solar e da sua ausência constituem a base de evolução de todas as formas de vida. Até à intervenção humana, a escuridão seguia-se sempre ao pôr-do-sol.

A evolução científica e tecnológica dos sistemas de iluminação artificial tem conduzido a soluções inovadoras e cada vez mais eficientes mas, a par dos inúmeros benefícios que o prolongar do dia trouxe à humanidade, essas situações têm conduzido a que nos esqueçamos da beleza da noite.
Na realidade, na iluminação de exteriores estamos muitas vezes a potenciar um novo desastre ambiental: a poluição luminosa.

Tal como acontece com o aquecimento climático, a dispersão de luz e a ocultação do céu estrelado irão ter reflexos no futuro da humanidade, se não for desde já consciencializada e estancada. Com estes excessos estamos a agredir a mãe natureza e a interferir no delicado equilíbrio dos ecossistemas.
O recurso desmesurado da luz à noite, muitas vezes assente em critérios alheios ao bem-estar humano e à vida selvagem constitui um problema de consciência ou mesmo de saúde mental.

Incongruentemente a eficácia luminosa das novas fontes, nomeadamente LEDs utilizados como optimizadores energéticos, tem contribuído fortemente para os excessos quantitativos de luz.
Actualmente mais de 80% da população mundial vive em locais sob poluição luminosa. Não é por falta de meios tecnológicos que existe este problema, mas sim pela ausência de sensibilidade e de sentido de responsabilidade. Quantas vezes a exagerada utilização da iluminação é tida como sinónimo de grandeza, mais-valia ou poder … pura ignorância!
Sob qualquer perspectiva, a escuridão assume um papel importante na vida terrestre, desde a ecologia à história, cultura, filosofia e cosmologia. Impõe-se o estudo formal da escuridão natural, assumindo-a como elemento determinante na boa e sã vivência, em contraponto com a decorrente ideia de quanto mais luz, melhor. É uma questão cultural.
O design de luz deve ter como ponto de partida a boa utilização da escuridão, pois tal como na música em que os momentos de silêncio acentuam a arte da melodia, ela proporcionará a criação de contrastes, optimizando a capacidade visual à custa de menores exigências energéticas. Saber criar a luz certa, no local certo, no momento certo, está na essência da luminotecnia.
A iluminação pública deve ser concebida ponderadamente e capaz de comunicar a história da luz numa comunidade, certamente realçando a arquitectura do edificado e das zonas de circulação e de estar, mas evidenciando as preocupações dos seus dirigentes quanto à boa prevenção do ambiente nocturno. Dizer não a “banhos de luz” porque a escuridão é um recurso natural escasso a proteger.
Não há nada que se compare com os sentimentos provocados pela contemplação de um céu estrelado, entre o pôr-do-sol e o nascer do sol. A profundidade e a grandeza desta visão devem coabitar com as soluções de iluminação pública. Infelizmente, neste aspecto, o país está muito longe das situações mais equilibradas: prevalece a quantidade (má) em detrimento da qualidade.
Países, ditos ricos na Europa, optam por níveis de iluminação pública que chegam a ser cerca de 1/3 do implementado nas terras lusitanas.
Nas principais cidades a diferença de opções é gritante. Para além dos excessos gritantes, outro factor condiciona em muito o bem-estar, por ser anti-natural: o uso e abuso de luz colorida, nomeadamente na iluminação arquitectónica em exteriores, principalmente no casco urbano, muitas vezes com tonalidades intensas e diferenciadas, fixas e dinâmicas.
Para o passante ocasional até poderá ser atractivo, mas para os residentes no local, certamente não será agradável sentir o ambiente marcado por cambiantes cromáticos desenraizados da calma paisagem nocturna, mesmo que a luz trespassante esteja bem controlada. Essa ambiência artificial, desenquadrada das necessidades humanas, certamente provocará fadiga visual, perturbando a vivência, o bem-estar mental e o descanso da vizinhança.
O recurso a tais efeitos cromáticos chega a ser aplicado no arvoredo de jardins, adulterando a percepção normal, transformando as árvores e arbustos em elementos artificiais de estética muito duvidosa. De árvores nada tem.
O desenvolvimento das ciências e tecnologias de iluminação deve ser aplicado criteriosamente, com bom senso e de maneira consciente, para servir o ser humano e não agredir a natureza, porque mal tratada já ela anda há muito.

Vítor Vajão
Eng. Conselheiro Especialista em Luminotecnia OE

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