Revista o electricista

Evolução do consumo de gás natural em Portugal

Evolução do consumo de gás natural em Portugal

No final do século XX, o gás natural surgiu como uma alternativa na diversificação das fontes energéticas de Portugal e como fonte menos poluente que o carvão e o petróleo, tendo desde então contribuído para a descarbonização da economia. Foi tendo um papel cada vez mais relevante ao longo do tempo, servindo hoje como backup do sistema eletroprodutor. Este breve artigo analisa a evolução do consumo do gás natural em Portugal, na última década.

Mercado convencional vs mercado elétrico

Existem 2 grandes segmentos de mercado para o Gás Natural: o Mercado Elétrico e o Mercado Convencional. O primeiro inclui o gás natural utilizado exclusivamente para a produção de eletricidade, em centrais de ciclo combinado. O segundo é constituído pelo gás natural usado para os consumos doméstico e industrial.

Na última década tem existido uma alteração significativa no consumo de ambos os mercados, conforme mostrado na Figura 1. É notória uma diminuição do consumo no mercado convencional, desde 2021, e um aumento substancial do consumo no mercado elétrico, entre 2015 e 2017.

Figura 1. Consumo de gás natural nos mercados convencional e elétrico, desde 2013, em Portugal continental
Figura 1. Consumo de gás natural nos mercados convencional e elétrico, desde 2013, em
Portugal continental (Fonte: REN).

É de notar também uma certa sazonalidade no consumo de gás, com o mercado convencional a consumir mais no Inverno e o elétrico a consumir mais no Verão. A que se deve este comportamento? Comecemos pelo mercado elétrico.

Gás natural como substituto do carvão

O aumento do consumo de gás natural para produção de eletricidade coincidiu com a diminuição abrupta da utilização de outros combustíveis fósseis para a mesma finalidade, nomeadamente o carvão, conforme mostrado na Figura 2. Ao longo da última década o gás natural foi sendo introduzido como alternativa menos poluente ao carvão, tendo este sido utilizado pela última vez para produção de eletricidade em Portugal em novembro de 2021. Em 2023, até setembro, a restante térmica representou apenas 1,8% da produção não renovável.

Devido à variabilidade na disponibilidade das energias renováveis, e consequente diminuição da produção no verão (devido à menor produção combinada das fontes eólica e hídrica nesta altura do ano), a utilização do gás natural no setor elétrico acaba por ser maior no Verão que no Inverno.

Figura 2. Produção de eletricidade e saldo importador, desde 2013, para Portugal continental
Figura 2. Produção de eletricidade e saldo importador, desde 2013, para Portugal continental
(Fonte: REN).

Gás natural como proxy da pandemia e da guerra na Europa?

Ao contrário do mercado elétrico, o mercado convencional tem visto uma redução do consumo entre 2021 e 2022. Analisando por setor, conforme presente na Figura 3, nota-se uma marcada diminuição do seu uso nos setores da indústria (-9%) e doméstico (-7%). Apesar do setor dos serviços manter o consumo (+0,6%) e os setores da agricultura, pescas e transportes aumentarem (+16%), 2022 fechou com uma diminuição de 7% no consumo de gás natural.

Figura 2. Produção de eletricidade e saldo importador, desde 2013, para Portugal continental (Fonte: REN).
Figura 3. Produção de eletricidade e saldo importador, desde 2013, para Portugal continental
(Fonte: REN).

Esta diminuição ocorreu paralelamente com a pandemia, numa fase inicial, e com o aumento dos preços do gás natural após a invasão da Ucrânia pela Rússia, mais recentemente. Ambas as circunstâncias levaram a uma redução da atividade industrial em Portugal. A redução do consumo do setor doméstico deve-se essencialmente à segunda causa.

Ainda sobre este mercado, a que se deve a sazonalidade do consumo, notória na Figura 1? Essencialmente ao consumo doméstico, maior no inverno para aquecimento das casas. Em jeito de conclusão deste breve artigo, e reconhecendo que o aumento ou diminuição do consumo de gás natural não pode ser limitado a um conjunto reduzido de motivos, não deixa de ser interessante pensar no papel que esta fonte de energia terá no futuro, em Portugal e no mundo. Será o futuro elétrico? Irá o hidrogénio desempenhar um papel crucial no mix energético? Sejam quais forem as respostas a estas perguntas, a ADENE estará cá para a acompanhar, com toda a energia!

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