A evolução tecnológica do sistema, a crescente exposição a eventos extremos e a digitalização introduzem novos desafios de segurança e resiliência. Nesse sentido, de seguida irá ser analisado o estado técnico da rede e as suas principais vulnerabilidades.
1. Enquadramento técnico do sistema eléctrico português
O Sistema Eléctrico Nacional estrutura-se em três blocos técnicos: rede de transporte, rede de distribuição e parque electroprodutor centralizado e distribuído. A operação decorre em regime síncrono com Espanha, formando o sistema eléctrico ibérico, com forte acoplamento dinâmico e coordenação operacional.
A segurança de exploração assenta em princípios clássicos de engenharia:
- critério N-1 na rede de transporte;
- redundância selectiva de activos críticos;
- protecções coordenadas e selectivas;
- controlo e despacho em tempo real.
A noção de resiliência acrescenta a capacidade de absorver perturbações, limitar falhas em cascata e recuperar rapidamente o serviço. Trata-se, hoje, de um requisito técnico explícito de planeamento e operação.
2. Exposição a ameaças meteorológicas em Portugal
Portugal apresenta um perfil de risco meteorológico com impacto directo na rede eléctrica devido a vários factores como: tempestades atlânticas com rajadas extremas; incêndios florestais extensivos; ondas de calor prolongadas; episódios de gelo e neve no interior; e descargas atmosféricas intensas.
Daí, os efeitos técnicos mais frequentes incluem a queda de árvores sobre linhas, a ruptura de condutores, o colapso de apoios, falhas múltiplas em alimentadores de média tensão e a indisponibilidade localizada de subestações.
A elevada extensão de rede aérea de média e baixa tensão, sobretudo em zonas rurais e florestais, constitui um factor estrutural de vulnerabilidade que condiciona os indicadores de continuidade de serviço em anos meteorologicamente adversos.
3. Transformação do mix de produção e impacto dinâmico
O sistema eléctrico português apresenta hoje um elevado peso de produção renovável variável, com forte presença de eólica e solar fotovoltaica, complementadas por hídrica e por uma componente térmica síncrona mais reduzida e menos permanente.
Do ponto de vista electrodinâmico, esta evolução traduz-se em:
- menor inércia síncrona disponível em certos períodos;
- redução da potência de curto-circuito em diversos nós;
- maior variabilidade de perfis de injecção;
- maior dependência de controlo electrónico.
As suas implicações operacionais incluem uma maior sensibilidade da frequência a desequilíbrios súbitos, uma necessidade de reservas rápidas, uma maior exigência de serviços de sistema e uma dependência de recursos com controlo dinâmico avançado.
Dessa forma, a robustez deixa de depender apenas da potência instalada e passa a depender das características dinâmicas dos recursos ligados à rede.
4. Envelhecimento e heterogeneidade de activos
Uma parte relevante dos activos de rede resulta de ciclos de investimento de décadas anteriores. Dessa forma, observam-se equipamentos com idade técnica elevada; uma diversidade de soluções construtivas; diferentes gerações de sistemas de protecção; e níveis de automação não uniformes.
Note-se que o envelhecimento conduz a um aumento de taxa de falha, a uma maior sensibilidade a esforço extremo e a uma maior variabilidade de desempenho.
A resposta técnica ao envelhecimento e heterogeneidade de activos passa por programas estruturados de renovação faseada de activos críticos, de manutenção baseada em condição, de monitorização online de transformadores e equipamentos e do reforço selectivo de corredores estratégicos.
João de Jesus Ferreira
Engenheiro Conselheiro – Electrotécnico – Especialista em energia
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