Podemos mesmo dizer que são direitos fundamentais dos cidadãos que importa garantir em permanência. Se necessidade houvesse, os recentes acontecimentos extremos ocorridos em Portugal demonstram de forma clara e inequívoca o quanto a nossa sociedade depende da energia e das telecomunicações.
Por isso e em coerência com o que têm sido os nossos contributos neste espaço, na APIEE acreditamos profundamente que há a necessidade de trazer para o topo da discussão a dignificação das profissões técnicas que suportam as infraestruturas críticas que garantem o fornecimento permanente de energia e dos serviços de telecomunicações. Trata-se de profissões absolutamente vitais para a nossa sociedade que, infelizmente, tantas vezes são esquecidas ou mesmo desprezadas.
Nesse sentido, escrevemos este artigo com a motivação de, uma vez mais, apelar à mobilização de todo o ecossistema de energia para o que consideramos ser uma causa que a todos deve envolver.
Evitaremos análises interpretativas e/ou especulativas fora da nossa responsabilidade, focando-nos naquilo que na APIEE sabemos ser uma realidade que coletivamente temos de saber enfrentar: que a resolução do problema da falta de mão-de-obra, passa obrigatoriamente pela dignificação das profissões técnicas.
O atual contexto
Já em edição anterior o dissemos e não hesitamos agora em voltar a fazê-lo: consideramos que as redes nacionais de transporte e de distribuição de energia eléctrica têm um desempenho de excelente qualidade, comparando muitíssimo bem com as suas congéneres europeias.
Da nossa parte, consideramos precipitado, quiçá pudéssemos escrever oportunista, aproveitar os efeitos dos fenómenos climatéricos extremos ocorridos no início de 2026, ou o apagão de abril de 2025, como factos que contrariam a nossa afirmação anterior. Parece-nos muito mais adequado aguardar pelos resultados dos trabalhos de investigação que se encontram em curso para, aí sim, poder concluir algo mais definitivo.
Feito este enquadramento inicial, importa ter presente que os desafios impostos pela transição energética e pela adaptação climática terão de ser devidamente estudados, planeados e implementados de forma célere e correta. No entanto, não será difícil antecipar que será necessário continuar a investir na rede, ampliando-a ou reforçando-a quando for o caso, e melhorando a sua eficiência, dotando-a da inteligência necessária. Por outras palavras, vai ser necessário investir em fazer mais rede nova, investir na renovação de partes das redes existentes, especialmente aquelas que se aproximam do limite da sua obsolescência e investir também na digitalização da mesma.
A nossa pergunta que, sendo fácil de formular, é de muito difícil resposta é: quem o irá fazer? Nomeadamente, com que mão-de-obra?
O desafio do setor
Sendo a APIEE a associação empresarial representativa da totalidade dos prestadores de serviços que colaboram em regime de empreitadas contínuas com as concessionárias das redes de transporte e de distribuição de energia, consideramo-nos totalmente habilitados a caracterizar a atual situação como muito preocupante. Não o fazemos de forma alarmista, fazemo-lo sim de forma séria e com o sentimento de dever de responsabilidade que nos move.
É por isso que temos vindo a alertar que, no dia-a-dia, os nossos associados enfrentam uma realidade caracterizada por:
- Forte carência de mão de obra especializada;
- Falta de atratividade do setor, especialmente para os jovens profissionais;
- Dificuldade de recrutamento de mão de obra qualificada, a ser formada em Portugal, oriunda da América Latina, África e da Ásia;
- Dificuldade, cada vez maior, na retenção de quadros qualificados para fazer face aos planos de investimento em curso;
- Grande procura destes profissionais por parte de outros países da Europa, nos quais esses profissionais são significativamente mais bem remunerados.
Em resumo, se não temos mão-de-obra disponível na quantidade necessária para dar resposta às necessidades do país, como iremos ser capazes de ser bem-sucedidos?
O nosso contributo
Com base no trabalho associativo que desenvolvemos, acreditamos que para sermos bem-sucedidos nesta ambição, teremos de trabalhar na dignificação destas profissões absolutamente fundamentais para a nossa sociedade.
Consideramos que essa dignificação deve necessariamente passar por:
- Quando não existir, construir os perfis técnicos adequados para as necessidades do país;
- Exigir que todos os profissionais que trabalhem na área da energia (gás ou electricidade) tenham as necessárias certificações para o efeito;
- Criar as condições para que os jovens se interessem por estas profissões técnicas;
- Demonstrar aos jovens que estas são profissões de futuro e com impacto na sociedade;
- Que Portugal evolua para uma economia mais desenvolvida, em lugar de uma economia viciada no preço mais baixo;
- Garantir uma melhoria significativa da remuneração líquida desses profissionais.
Temos consciência que tais desafios não são possíveis de serem alcançados se não for feito um esforço colectivo por todos os elos da cadeia de valor e é, por isso, que temos vindo a desenvolver uma forte ação de comunicação externa alertando para estas questões. Só assim será possível atuar nas diversas variáveis a gerir, garantindo a possibilidade de Atrair – Formar – Certificar – Reter estes profissionais.
Bruno Rodrigues
Presidente da Direção da APIEE e Administrador da Bragalux, SA
João Rodrigues
Diretor Executivo da APIEE
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