Revista o electricista

Combinar eletricidade e gases renováveis pode gerar poupanças até 10 mil milhões de euros

Estudo apresentado conclui que estratégia equilibrada entre eletricidade e gases renováveis é mais eficiente, segura e economicamente sustentável.

A APIEE – Associação Portuguesa dos Industriais de Engenharia Energética e a EY‑Parthenon apresentaram na segunda-feira passada, em Lisboa, as conclusões do estudo “Sustentabilidade da Rede Nacional de Distribuição de Gás”. O estudo conclui que uma estratégia equilibrada, que combine eletrificação e gases renováveis, pode gerar poupanças até 10 mil milhões de euros face a um cenário de eletrificação total, evitando custos adicionais no reforço da rede elétrica e na adaptação dos edifícios.

Entre as principais conclusões apresentadas, destaca-se que:

  • a rede nacional de distribuição de gás é uma das mais modernas da Europa, com elevada fiabilidade e capacidade de adaptação à descarbonização;
  • os gases renováveis, em particular o biometano, poderão substituir até 60% do consumo atual de gás, reforçando a autonomia energética do país;
  • a preservação de um sistema energético integrado – eletricidade e gás – é essencial para garantir eficiência económica, segurança de abastecimento e flexibilidade futura.

O estudo alerta, no entanto, para o impacto de medidas legislativas recentes, como o Decreto‑Lei n.º 11/2023 e o Programa E‑Lar, que aceleram a eletrificação de forma não alinhada com a estratégia europeia de sistemas energéticos integrados.

Segundo a análise apresentada, estas medidas poderão:

  • reduzir a base de consumidores e aumentar a pressão tarifária sobre os utilizadores remanescentes;
  • comprometer o aproveitamento de uma infraestrutura recente e estratégica;
  • limitar a integração futura de gases renováveis nos edifícios e na economia.

Apesar de uma tendência estrutural de redução da procura de gás, o estudo demonstra que o Sistema Nacional de Gás manterá relevância até 2040, com níveis de consumo ainda significativos e compatíveis com investimento contínuo.

Além disso, conclui que reduções excessivas de investimento não conduzem a tarifas mais baixas, sendo o investimento regular um fator essencial para a estabilidade tarifária e sustentabilidade do sistema.

“A análise evidencia que uma abordagem integrada do sistema energético permite ganhos significativos de eficiência, podendo evitar até 10 mil milhões de euros de custos adicionais face a cenários de eletrificação total, principalmente através de menores necessidades de investimento na rede elétrica e na adaptação dos edifícios.”, afirma Hermano Rodrigues, Principal na EY-Parthenon.

O Diretor-Executivo da APIEE, João Rodrigues, acrescenta: “Este estudo demonstra que a transição energética em Portugal não deve ser vista como uma escolha entre eletrificação ou gás, mas sim como uma combinação inteligente de soluções. Preservar a rede de gás e apostar nos gases renováveis é essencial para garantir custos mais baixos, segurança energética e uma transição equilibrada.”

Os autores defendem que a transição energética em Portugal deve assentar numa visão de longo prazo, tecnologicamente neutra e alinhada com a Europa, evitando decisões de curto prazo que possam comprometer opções futuras.

Este estudo foi desenvolvido no âmbito da reflexão estratégica sobre o papel da rede de distribuição de gás em Portugal, num momento marcado por profundas transformações no setor energético nacional, impulsionadas pela descarbonização, por uma narrativa a favor da eletrificação dos consumos e por novas orientações regulatórias.

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