No final de outubro, foi publicado pela Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), o Balanço Energético Nacional 2024, um ano repleto de registos históricos. Iremos analisar os dados relativos à evolução da produção doméstica e do consumo final de energia, bem como os indicadores relativos ao peso das renováveis no consumo final bruto de energia e o contributo da eletricidade renovável no consumo final bruto de eletricidade, nos últimos 20 anos.
Produção doméstica de energia
A produção doméstica de energia corresponde à quantidade de energia extraída a partir de fontes renováveis e não renováveis, ou seja, a energia primária produzida em território nacional.
Como Portugal não dispõe de combustíveis fósseis (energias não renováveis), quase toda a produção doméstica de energia tem origem em fontes renováveis.
Quanto maior for a sua produção, menor será a dependência energética do país, e, pelo facto dos nossos recursos energéticos endógenos serem de origem renovável, maior será a descarbonização da economia, devido à menor emissão de gases com efeito de estufa (GEE) para a atmosfera.
A Figura 1 mostra como evoluiu a produção doméstica de energia nos últimos 20 anos.

A forte aposta no aproveitamento das energias renováveis mais do que duplicou a produção doméstica nos últimos 20 anos, e atingiu em 2024 o seu valor máximo desde que há registo.
Não menos relevante é conhecer a evolução do peso das componentes que constituem a produção doméstica, isto é, o mix renovável.

Como se pode observar na Figura 2, há uma mudança substantiva na composição da produção doméstica. Enquanto em 2004 a componente “eletricidade renovável”, que corresponde à eletricidade produzida diretamente pelas hídricas, eólicas, fotovoltaico e pela geotermia, representava da produção doméstica total, em 2024 ultrapassava os 43%. Esta mudança resultou do aumento gradual das potências instaladas das centrais hidroelétricas e eólicas ocorrido ao longo das duas décadas, e, a partir de 2020, acompanhada de um forte incremento do solar fotovoltaico, quer na produção centralizada quer na produção descentralizada. Em contrapartida, a componente “renováveis sem eletricidade[1]” perdeu representatividade em cerca de 20,3 p.p. face a 2004.
A componente “resíduos não renováveis[2]” é pouco significativa e relativamente estável no contexto da produção doméstica de energia.
Consumo final
O consumo final de energia corresponde à energia efetivamente adquirida, quer pelos cidadãos, quer pelas empresas.
O consumo final de energia conduz-nos a várias abordagens, todas de grande importância.
- Relativamente à quantidade: naturalmente, quanto menor for o consumo final de energia, melhor. Contudo, quando há um aumento no consumo final, tal não deve ser entendido como algo necessariamente negativo. Pode resultar em mais crescimento económico e melhores condições sociais da população. Aqui estamos perante o conceito de eficiência energética global do país, medido pelo rácio consumo de energia (final ou primária) / Produto Interno Bruto (PIB). Se anualmente a taxa de crescimento real do PIB superar a taxa de crescimento do consumo final de energia, estamos perante uma economia energeticamente mais eficiente. Se a situação for a contrária, o aumento do consumo de energia revela desperdício/ineficiências energéticas;
- Relativamente à qualidade: além da quantidade, devemos conhecer também o que consumimos em termos de fontes/formas de energia (renováveis ou não renováveis) e o respetivo peso no consumo total de energia;
- Repartição por setores de atividade: o consumo final de energia permite-nos conhecer a repartição do consumo pelos diversos setores da atividade económica, e com essa informação podemos de algum modo identificar o nível de industrialização ou de terceirização da economia, e até identificar o próprio grau de desenvolvimento do país.
Análise das primeiras duas alíneas:

De acordo com os dados da Figura 3, verificamos que em 2024 o consumo de energia final diminuiu em cerca de 14,2% face a 2004 e registou um acréscimo de 6,6% em relação a 2014.
Este é um bom exemplo do que foi referido previamente, em particular na alínea a). Apesar do consumo final de 2024 ser superior ao verificado em 2014 e de ainda não estar publicado oficialmente pelo INE, o valor do real do PIB de 2024 a preços de 2016, podemos afirmar quase com toda a certeza, que a eficiência energética do país melhorou consideravelmente relativamente aos anos em análise.
Em 2004, a intensidade energética em energia final foi de 106 tep/M€2016, melhorando o seu valor para 87 tep/M€2016, em 2014. Para 2024, tudo indica que será superado o valor de 78 tep/M€2016, atingido em 2023, o melhor registo até à data.
Em termos qualitativos, os dados da Figura 3 apontam para um peso maior das energias renováveis no consumo final de energia, com perda para os combustíveis fósseis, e maior destaque para a componente derivados do petróleo. Realça-se ainda uma maior eletrificação do consumo, onde podemos observar que mais de do consumo final de 2024 foi devido ao consumo de energia elétrica.
É importante salientar que o baixo peso das energias renováveis (11,9% em 2024) é somente aparente. Esta fração refere-se apenas ao consumo direto das renováveis (maioritariamente sob a forma de biomassa). As componentes “calor” e “eletricidade” são largamente de origem renovável.
Distribuição do consumo de energia final pelos setores de atividade:

De acordo com a Figura 4, destacamos o setor dos transportes como o principal consumidor de energia final, e, em 2024, com mais peso do que nas duas últimas décadas. Continua a ser difícil mudar o comportamento dos cidadãos na mobilidade, o que, por consequência, retarda o ritmo de descarbonização do setor e potencia o aumento da dependência energética nacional.
O setor da indústria é o que revela maior perda de representatividade no consumo final, sendo ultrapassado pela soma dos setores dos serviços e doméstico desde há uma década.
Devido aos investimentos que estão previstos para a instalação de grandes centros de dados em Portugal, é expectável que nos próximos anos o consumo no setor dos serviços se aproxime ou mesmo supere o consumo doméstico, e, com isso, ganhe mais peso na distribuição do consumo total de energia final.
Renováveis no consumo final bruto de energia
Este indicador informa o peso real das fontes de energia renovável no consumo final bruto de energia, e é calculado de acordo com as Diretivas 2009/28/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 23 de abril de 2009, até 2020, e UE 2018/2001 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 11 de dezembro de 2018, a partir de 2021.

A Figura 5 apresenta a evolução deste indicador, bem como a meta estabelecida para 2030, de acordo com o Plano Nacional Energia e Clima 2030 (PNEC 2030), aprovado pela Resolução da Assembleia da República n.º 127/2025, de 10 de abril.
O valor de 2024 é o maior desde que há registo. Já representa mais de do consumo, estando em linha com a meta, mas requer nos próximos anos mais aceleração (mais produção renovável) com vista ao cumprimento da meta.
Eletricidade renovável no consumo final bruto de eletricidade
O cálculo desde indicador rege-se pelos diplomas previamente citados. O consumo final bruto de eletricidade, a partir de fontes de energia renováveis, corresponde à eletricidade produzida a partir dessas mesmas fontes, e inclui a produção de eletricidade por parte de autoconsumidores de energia renovável e comunidades de energia renovável, e exclui a produção de eletricidade em unidades de armazenamento por bombagem.

A Figura 6 apresenta a evolução deste indicador e, também, a meta estabelecida no PNEC 2030.
À semelhança do indicador anterior, o valor de 2024 é também o maior desde que há registo. Assim, verificamos que, nesse ano, a produção de eletricidade renovável representou aproximadamente do consumo final bruto de eletricidade, sendo a restante fração relativa à produção não renovável mais as importações de Espanha. Em 20 anos, a componente renovável aumentou cerca de 38,4 p.p.
Também este indicador está em linha com a meta estabelecida para o horizonte 2030 e requer igualmente mais aceleração de implementação (mais produção de eletricidade renovável) com vista a cumprir a meta.
Conclusões
As políticas públicas para o setor energético, estabelecidas ao longo das duas últimas décadas, alteraram o perfil energético nacional, resultado de um maior aproveitamento dos recursos energéticos nacionais. Mais do que duplicámos a produção doméstica de energia (quase toda de origem renovável). Não menos importante, é o registo contínuo de mudança do mix energético renovável nacional. Em 20 anos, o contributo da eletricidade aumentou de 25% para 43%, ou seja, a produção doméstica cresceu, muito à custa de uma forte produção de eletricidade renovável.
Fruto da clara aposta na produção de eletricidade renovável, temos atualmente não apenas uma economia mais eletrificada, mas também mais renovável e descarbonizada, em linha para se alcançar a neutralidade carbónica em 2050.
Quanto ao consumo final de energia, o peso dos combustíveis fósseis ainda é relativamente alto e superior a 55%, mas com tendência a diminuir, graças à maior perda relativa aos produtos derivados do petróleo. O gás natural irá perder gradualmente a sua representatividade, uma vez que está prevista a redução do consumo destinado à produção de eletricidade, a substituição progressiva de equipamentos domésticos a gás por equipamentos elétricos, e também, pela incorporação gradual de gases renováveis na atual rede de gás natural.
[1] Inclui lenhas e resíduos vegetais, resíduos sólidos urbanos, licores sulfitivos, biogás, biocombustíveis, outros renováveis e bombas de calor (contabilizado no balanço energético a partir de 2014).
[2] Inclui pneus usados, óleos usados, outros resíduos industriais não renováveis e a fração não renovável dos resíduos sólidos urbanos (RSU).
António Almeida,
Técnico Especialista da Direção de Formação, Informação e Educação
ADENE – Agência para a Energia
Tel.: +351 214 722 800 Fax: +351 214 722 898
geral@adene.pt . www.adene.pt
Outros artigos relacionados
- Artigo “Balanço energético 2023” presente no Espaço ADENE na Revista “o electricista”;
- Artigo “Evolução do consumo de energia elétrica em Portugal” presente no Espaço ADENE na Revista “o electricista”;
- Artigo “Consumo de energia: setores doméstico e serviços” presente no Espaço ADENE na Revista “o electricista”;
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