Revista o electricista

balanço energético sintético 2022

Balanço Energético Nacional 2024

O Balanço Energético Sintético tem por objetivo apresentar de forma resumida a evolução dos principais indicadores energéticos referentes ao ano anterior.

No final de outubro, foi publicado pela Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), o Balanço Energético Nacional 2024, um ano repleto de registos históricos. Iremos analisar os dados relativos à evolução da produção doméstica e do consumo final de energia, bem como os indicadores relativos ao peso das renováveis no consumo final bruto de energia e o contributo da eletricidade renovável no consumo final bruto de eletricidade, nos últimos 20 anos.

Produção doméstica de energia

A produção doméstica de energia corresponde à quantidade de energia extraída a partir de fontes renováveis e não renováveis, ou seja, a energia primária produzida em território nacional.

Como Portugal não dispõe de combustíveis fósseis (energias não renováveis), quase toda a produção doméstica de energia tem origem em fontes renováveis.

Quanto maior for a sua produção, menor será a dependência energética do país, e, pelo facto dos nossos recursos energéticos endógenos serem de origem renovável, maior será a descarbonização da economia, devido à menor emissão de gases com efeito de estufa (GEE) para a atmosfera.

A Figura 1 mostra como evoluiu a produção doméstica de energia nos últimos 20 anos.

Produção doméstica de energia.
Figura 1. Produção doméstica de energia.

A forte aposta no aproveitamento das energias renováveis mais do que duplicou a produção doméstica nos últimos 20 anos, e atingiu em 2024 o seu valor máximo desde que há registo.

Não menos relevante é conhecer a evolução do peso das componentes que constituem a produção doméstica, isto é, o mix renovável.

Componentes da produção doméstica de energia
Figura 2. Componentes da produção doméstica de energia.

Como se pode observar na Figura 2, há uma mudança substantiva na composição da produção doméstica. Enquanto em 2004 a componente “eletricidade renovável”, que corresponde à eletricidade produzida diretamente pelas hídricas, eólicas, fotovoltaico e pela geotermia, representava  da produção doméstica total, em 2024 ultrapassava os 43%. Esta mudança resultou do aumento gradual das potências instaladas das centrais hidroelétricas e eólicas ocorrido ao longo das duas décadas, e, a partir de 2020, acompanhada de um forte incremento do solar fotovoltaico, quer na produção centralizada quer na produção descentralizada. Em contrapartida, a componente “renováveis sem eletricidade[1]” perdeu representatividade em cerca de 20,3 p.p. face a 2004.

A componente “resíduos não renováveis[2]” é pouco significativa e relativamente estável no contexto da produção doméstica de energia.

Consumo final

O consumo final de energia corresponde à energia efetivamente adquirida, quer pelos cidadãos, quer pelas empresas.

O consumo final de energia conduz-nos a várias abordagens, todas de grande importância.

  1. Relativamente à quantidade: naturalmente, quanto menor for o consumo final de energia, melhor. Contudo, quando há um aumento no consumo final, tal não deve ser entendido como algo necessariamente negativo. Pode resultar em mais crescimento económico e melhores condições sociais da população. Aqui estamos perante o conceito de eficiência energética global do país, medido pelo rácio consumo de energia (final ou primária) / Produto Interno Bruto (PIB). Se anualmente a taxa de crescimento real do PIB superar a taxa de crescimento do consumo final de energia, estamos perante uma economia energeticamente mais eficiente. Se a situação for a contrária, o aumento do consumo de energia revela desperdício/ineficiências energéticas;
  2. Relativamente à qualidade: além da quantidade, devemos conhecer também o que consumimos em termos de fontes/formas de energia (renováveis ou não renováveis) e o respetivo peso no consumo total de energia;
  3. Repartição por setores de atividade: o consumo final de energia permite-nos conhecer a repartição do consumo pelos diversos setores da atividade económica, e com essa informação podemos de algum modo identificar o nível de industrialização ou de terceirização da economia, e até identificar o próprio grau de desenvolvimento do país.

Análise das primeiras duas alíneas:

Repartição do consumo final de energia por formas de energia.
Figura 3. Repartição do consumo final de energia por formas de energia.

De acordo com os dados da Figura 3, verificamos que em 2024 o consumo de energia final diminuiu em cerca de 14,2% face a 2004 e registou um acréscimo de 6,6% em relação a 2014.

Este é um bom exemplo do que foi referido previamente, em particular na alínea a). Apesar do consumo final de 2024 ser superior ao verificado em 2014 e de ainda não estar publicado oficialmente pelo INE, o valor do real do PIB de 2024 a preços de 2016, podemos afirmar quase com toda a certeza, que a eficiência energética do país melhorou consideravelmente relativamente aos anos em análise.

Em 2004, a intensidade energética em energia final foi de 106 tep/M€2016, melhorando o seu valor para 87 tep/M€2016, em 2014. Para 2024, tudo indica que será superado o valor de 78 tep/M€2016, atingido em 2023, o melhor registo até à data.

Em termos qualitativos, os dados da Figura 3 apontam para um peso maior das energias renováveis no consumo final de energia, com perda para os combustíveis fósseis, e maior destaque para a componente derivados do petróleo. Realça-se ainda uma maior eletrificação do consumo, onde podemos observar que mais de  do consumo final de 2024 foi devido ao consumo de energia elétrica.

É importante salientar que o baixo peso das energias renováveis (11,9% em 2024) é somente aparente. Esta fração refere-se apenas ao consumo direto das renováveis (maioritariamente sob a forma de biomassa). As componentes “calor” e “eletricidade” são largamente de origem renovável.

 Distribuição do consumo de energia final pelos setores de atividade:

Repartição do consumo final de energia por setores de atividade.
Figura 4. Repartição do consumo final de energia por setores de atividade.

De acordo com a Figura 4, destacamos o setor dos transportes como o principal consumidor de energia final, e, em 2024, com mais peso do que nas duas últimas décadas. Continua a ser difícil mudar o comportamento dos cidadãos na mobilidade, o que, por consequência, retarda o ritmo de descarbonização do setor e potencia o aumento da dependência energética nacional.

O setor da indústria é o que revela maior perda de representatividade no consumo final, sendo ultrapassado pela soma dos setores dos serviços e doméstico desde há uma década.

Devido aos investimentos que estão previstos para a instalação de grandes centros de dados em Portugal, é expectável que nos próximos anos o consumo no setor dos serviços se aproxime ou mesmo supere o consumo doméstico, e, com isso, ganhe mais peso na distribuição do consumo total de energia final.

Renováveis no consumo final bruto de energia

Este indicador informa o peso real das fontes de energia renovável no consumo final bruto de energia, e é calculado de acordo com as Diretivas 2009/28/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 23 de abril de 2009, até 2020, e UE 2018/2001 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 11 de dezembro de 2018, a partir de 2021.

Renováveis no consumo final bruto de energia.
Figura 5. Renováveis no consumo final bruto de energia.

A Figura 5 apresenta a evolução deste indicador, bem como a meta estabelecida para 2030, de acordo com o Plano Nacional Energia e Clima 2030 (PNEC 2030), aprovado pela Resolução da Assembleia da República n.º 127/2025, de 10 de abril.

O valor de 2024 é o maior desde que há registo. Já representa mais de  do consumo, estando em linha com a meta, mas requer nos próximos anos mais aceleração (mais produção renovável) com vista ao cumprimento da meta.

Eletricidade renovável no consumo final bruto de eletricidade

O cálculo desde indicador rege-se pelos diplomas previamente citados. O consumo final bruto de eletricidade, a partir de fontes de energia renováveis, corresponde à eletricidade produzida a partir dessas mesmas fontes, e inclui a produção de eletricidade por parte de autoconsumidores de energia renovável e comunidades de energia renovável, e exclui a produção de eletricidade em unidades de armazenamento por bombagem.

Eletricidade renovável no consumo final bruto de eletricidade.
Figura 6. Eletricidade renovável no consumo final bruto de eletricidade.

A Figura 6 apresenta a evolução deste indicador e, também, a meta estabelecida no PNEC 2030.

À semelhança do indicador anterior, o valor de 2024 é também o maior desde que há registo. Assim, verificamos que, nesse ano, a produção de eletricidade renovável representou aproximadamente   do consumo final bruto de eletricidade, sendo a restante fração relativa à produção não renovável mais as importações de Espanha. Em 20 anos, a componente renovável aumentou cerca de 38,4 p.p.

Também este indicador está em linha com a meta estabelecida para o horizonte 2030 e requer igualmente mais aceleração de implementação (mais produção de eletricidade renovável) com vista a cumprir a meta.

Conclusões

As políticas públicas para o setor energético, estabelecidas ao longo das duas últimas décadas, alteraram o perfil energético nacional, resultado de um maior aproveitamento dos recursos energéticos nacionais. Mais do que duplicámos a produção doméstica de energia (quase toda de origem renovável). Não menos importante, é o registo contínuo de mudança do mix energético renovável nacional. Em 20 anos, o contributo da eletricidade aumentou de 25% para 43%, ou seja, a produção doméstica cresceu, muito à custa de uma forte produção de eletricidade renovável.

Fruto da clara aposta na produção de eletricidade renovável, temos atualmente não apenas uma economia mais eletrificada, mas também mais renovável e descarbonizada, em linha para se alcançar a neutralidade carbónica em 2050.

Quanto ao consumo final de energia, o peso dos combustíveis fósseis ainda é relativamente alto e superior a 55%, mas com tendência a diminuir, graças à maior perda relativa aos produtos derivados do petróleo. O gás natural irá perder gradualmente a sua representatividade, uma vez que está prevista a redução do consumo destinado à produção de eletricidade, a substituição progressiva de equipamentos domésticos a gás por equipamentos elétricos, e também, pela incorporação gradual de gases renováveis na atual rede de gás natural.


[1] Inclui lenhas e resíduos vegetais, resíduos sólidos urbanos, licores sulfitivos, biogás, biocombustíveis, outros renováveis e bombas de calor (contabilizado no balanço energético a partir de 2014).
[2] Inclui pneus usados, óleos usados, outros resíduos industriais não renováveis e a fração não renovável dos resíduos sólidos urbanos (RSU).

António Almeida,
Técnico Especialista da Direção de Formação, Informação e Educação

ADENE – Agência para a Energia
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